9.10.08

Serviço Público, garrafão e couratos (2)

Boçalidade e mau gosto na TV pública (Rui Cartaxana, Record, 9/10/08) . «Não sei se o leitor já apanhou com uma “coisa” chamada “A Liga dos últimos”, que começou pela RTPN e agora é emitida na RTP1, em horário nobre, e depois repetida em vários horários e canais, como se fora uma obra-prima. Trata-se de um exercício de extremo mau gosto, com uma pretensa visão humorística de um zé-povinho bronco de aldeias que já não existem, mas de uma boçalidade imprópria para consumo e perante a qual se sente um impulso irresistível para chamar a ASAE. Claro que se isto fosse feito num canal privado, com o dinheiro do dr. Balsemão ou do sr. Ricardo Salgado, vá que não vá, mas na televisão pública, com o dinheiro do Orçamento, que é como quem diz, dos nossos impostos, é um abuso para o qual chamo a atenção da ERC.»

Afinal ainda há quem se indigne na santa terrinha

Serviço público, garrafão e couratos

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4.10.08

Afinal ainda há quem se indigne na santa terrinha

João Pereira Coutinho no Expresso/Única de hoje: “Por que motivo as pessoas se indignam com o programa «O Momento da Verdade» mas não levantam uma pálpebra com a «Liga dos Últimos»? Opinião pessoal: se existe «prostituição» na televisão portuguesa, para usar as imortais palavras do presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, ela não está no programa da SIC. Está inteiramente na RTP, disfarçada em comédia «realista», o que torna o caso mais subtil e, talvez por isso, mais insidioso. (…) Se este espectáculo, que é pago com dinheiro dos contribuintes, não incomoda a Entidade Reguladora, com que autoridade moral vem ela vergastar uma estação privada?”

Meu caro João Pereira Coutinho, vou tentar dar uma ajuda à sua interrogação. Veja, por exemplo, a origem da coisa: ERC: regulação, “contra-regulação” ou governamentalização?

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25.9.08

Do interesse público aos lixos privados dos públicos

ERC avalia concurso da SIC (JN, 25.9.08): «A Reguladora para a Comunicação vai avançar com um processo de análise ao "Momento da verdade". Explorar a vida privada pelo seu lado mais negro é o que mais impressiona quem olha criticamente para o formato.» (…) Rui Ramos, psicólogo clínico: «(...) a ERC já se devia ter pronunciado. "Estamos diante de claro abuso de poder por parte de uma estação". O programa "explora o pior das nossas mentes, pois todos nós temos pensamentos e negativos", justifica. "Uma coisa é o que nos passa pela cabeça e outra o comportamento social. Este formato vai puxar o que há de mais cruel no ser humano, o lixo que está lá dentro".

Sob o signo de "A ERC pode... mas não o fará"

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20.9.08

Sob o signo de "A ERC pode... mas não o fará"

A ERC sobre O Momento da Verdade: “Isto é uma forma de prostituição” (CM, 19/9/08) - A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vai pronunciar-se sobre o teor de ‘O Momento da Verdade’, garante o presidente, Azeredo Lopes, que classifica o programa da SIC como "uma forma de prostituição". (…) No limite, a ERC pode exigir à SIC que retire do ar ‘O Momento da Verdade’, porém, Azeredo Lopes assegura que não o fará.»

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Abaixo de cão

A televisão abaixo de zero, Fernando Sobral (CM, 19/9/08): «Desde há algum tempo que os segredos e os pecados começaram a valer dinheiro. Recompensa-se generosamente quem, em público, confessa tudo o que de mal fez, mesmo que isso magoe e humilhe uma série de pessoas que convivem com o feliz contemplado, com uns milhares de euros. Hoje em dia tudo se compra: até a honra. Essa parece ser a mensagem de ‘O Momento da Verdade’.»

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8.8.08

RTP com o Curral às costas

"Telerural" muda de horário para sábado: «Quim Roscas e Zeca Estacionâncio vão passar a dar conta das notícias da aldeia de Curral das Moinas aos sábados cerca das 23 horas.»

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12.5.08

"Showrnalismo"

«(...) E então o jornalista da televisão questiona a razão de as pessoas ficarem em frente à casa onde estão os suspeitos, xingando-os, jogando pedras no carro do avô da menina, num show de histeria coletiva.

«O jornalista não sabe a razão? Pois eu sei. É por causa dele mesmo, de seus colegas, do programa de televisão, dos jornais, rádios e revistas que transformaram o crime e seus personagens – inclusive o prédio – em celebridades.

«Motivada, dona Maria pega um ônibus às seis da manhã e vai até o prédio famoso onde arranja um lugarzinho bom para poder xingar os “assassinos”. Bate fotos com seu celular. Levanta o cartaz onde escreveu sobre o anjinho. Come o sanduíche que levou de casa. Comenta com a comadre sobre a janela de onde foi lançada a menina. Fala da informação exclusiva que recebeu do primo da namorada do vizinho do tio da amiga que trabalha no necrotério.

«Participa da ação. E, se der sorte, é entrevistada pela rede de televisão. Não acrescenta nada, mas tem seus quinze segundos de fama. E incentiva outras centenas de donas-marias, ávidas por aparecer na televisão. E loucas pra ver mais televisão. Que é tudo que a televisão quer.» [Luciano Pires, empauta.net, 3/5/08]

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1.12.07

A "hegemonia da novela"

- A ficção nacional está no bom caminho?
- Maça-me que as pessoas neste País pensem que ficção é só novela. A ficção portuguesa foi reduzida à novela. Inclusive, no sentido em que se produz. Tudo é pensado a partir da novela.-

- Assistimos à hegemonia da novela?
- Se derem outros produtos às pessoas elas interessam-se por eles desde que tenham o mínimo de qualidade. Há novela de manhã, à tarde e à noite... já não se pode com tanta novela. É um massacre! Parece que as televisões não têm brio nas suas grelhas. São simples máquinas de fazer dinheiro.

(Entrevista com Rita Blanco - "TV não têm brio nas grelhas", CM, 1.12)

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17.10.07

When Reality TV Gets Too Real

When Reality TV Gets Too Real : «(...) In recent years, producers and networks have increasingly pushed the boundaries of television voyeurism in search of another ratings hit. At times, this has proved problematic for television networks.» (NYT, 6.10)

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20.6.07

TVI condenada

29.5.07

Junk TV

Sol online, 29.5.07: Endemol lança 'reality show' de doação de órgãos. "Uma mulher vai decidir através de um reality show qual de três pessoas merece receber os seus rins e sobreviver à doença. O concurso ainda não começou mas já está a chocar a Holanda." (…) A BNN diz que “a probabilidade de receber um rim através do reality show é maior do que pelo sistema holandês de saúde.”

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24.5.07

Ofcom's investigation on Channel Four's Big Brother (olha se fosse por cá...)














Shilpa Shetty, vencedora do Celebrity Big Brother do Channel Four, alegadamente vítima de racismo e de bullying


Ofcom's investigation found that Channel Four made serious editorial misjudgements, compounded by a serious failure of its compliance process. Ofcom has therefore found Channel Four in breach of the Broadcasting Code and has imposed a statutory sanction on Channel Four.

The statutory sanction imposed by Ofcom directs Channel Four to broadcast a summary of Ofcom’s finding on three separate occasions. This will be at the start of: the first programme of the new series of Big Brother; the first re-versioned programme the following morning; the first eviction show. Ofcom’s finding and the direction also apply to S4C because it also broadcasts Channel Four’s Celebrity Big Brother programming (the full Adjudication)

Commenting on the investigation, Ed Richards, Ofcom Chief Executive, said:"It is essential that Broadcasters are able to air challenging and controversial material but in doing so they must have effective compliance procedures in place and must exercise their editorial duties responsibly." "Ofcom takes allegations of racist abuse and bullying on television extremely seriously. An unprecedented number of complaints were received and, whilst Celebrity Big Brother Brother was still on-air, we launched a full investigation.

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26.4.07

FCC Presents Ways to Control TV Violence

(AP): "There is a correlation between bloodshed on television and violence in real life, and Congress can do something about the TV version without violating the First Amendment, regulators said Wednesday. A long-awaited report from the Federal Communications Commission lays out ways the government can regulate violence on television, including cable, satellite and broadcast". Federal Communications Commission: http://www.fcc.gov

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O ministro foi à blogosfera (a essa mesmo) explicar

1.1.07

2006 tele(re)visto

2006 começou com um interessante (e pertinente) pedido de esclarecimento do Tribunal de Contas à RTP sobre a ausência de controlo do cumprimento efectivo das obrigações qualitativas de serviço público no quadro do contrato de concessão existente entre o Estado e a empresa. Solicitado para Junho de 2006, ainda se aguarda conhecimento público da resposta da RTP.

Começou também com um (por todos os motivos) elucidativo comunicado da AACS (4 de Janeiro de 2006), em despedida de funções, sobre a censura e a discriminação televisiva da pré-campanha para a Presidência da República.

Com a eleição da ERC, a 2 de Fevereiro, depois de atrabiliárias configurações do seu conselho regulador e da questão da sua independência – que é, de um maneira geral, também a questão das nomeações governamentais dos reguladores sectoriais – ficava a certeza, neste final de ano de 2006, de que este regulador teria tido um ganho claro em transparência se, como se fez agora na ERSE, ou como se fez na Anacom, na AdC, etc., os seus líderes fossem nomeados pelas respectivas tutelas. Tinha-se poupado muito papel e tinta e os pontos tinham ficado bem em cima dos ii.

O ano correu sob o signo da ‘monocultura’ telenovelística, não se sabendo se o Regulador ainda está a fazer contas às 10 horas de novelas com que SIC e TVI ‘embrulham’ os seus telejornais, num verdadeiro atentado à sanidade mental de miúdos e graúdos deste país, ou se a ERC já está também anestesiada pela droga electrónica produzida em doses industriais em Carnaxide e Queluz de Baixo.

E estamos no cinquentenário da Televisão em Portugal. Ao fim destes 50 anos de história, é mais do que tempo de exigir que a RTP1 vá ao encontro do caminho pedido pelo Tribunal de Contas (já que o Regulador até agora mostrou pouca vontade de o fazer), através de uma inequívoca ética de antena e de um inequívoco Serviço Público prestado aos Cidadãos deste país.

A verdade é que o sector televisivo, desde 1992, é ele próprio um desregulador dos media em Portugal. Como escrevemos, as consequências dos erros cometidos na regulação e na gestão política do audiovisual conduziram, em Portugal, a um sistema extremamente crítico no sector televisivo, que, claramente, não se estruturou, como a Lei prescreve, em ordem à satisfação do interesse público. Daí, este ser um sector:

i) Sem mercado suficiente para todos os operadores;


ii) Sem indicadores precisos e estudos independentes, claros, objectivos, com metodologias técnico-científicas apropriadas, sobre o desempenho do Audiovisual público e privado ao longo das concessões/alvarás;

iii) Sem uma estratégia aplicada, de referência, para o audiovisual público e sem objectivos ou metas quantificáveis, designadamente no tocante à sua missão e obrigações de programação;

iv) Sem regulamentação específica, com detalhe, no que é estratégico (ex: renovação das licenças de TV);

v) Sem cadernos de encargos atribuídos, enquanto tal, aos operadores privados;

vi) Sem monitorização consistente (até ver), atenta e regular da “ética de antena” e dos conteúdos emitidos pelo serviço público de TV e pelos canais privados.

Para além disso:

i) Existe uma “espiral de silêncio” na SIC e na TVI que eliminou o debate público, cultural e político nas suas grelhas de programas;

ii) A informação está regularmente submetida ao ‘diktat’ de estratégias de programação, desprogramação e contra-programação dos canais, bem como à actualidade trágica e à catástrofe;

iii) Os telejornais continuam também submetidos a uma organização burocrática e mimética da informação dependente da agenda institucional e dos porta-vozes oficiais, censurando na maior parte das vezes a virtude civil, a expressão da Cidadania, a experiência social e não tendo uma visão estratégica do país;

iv) O horário nobre está, nos três canais de maior audiência, fidelizado horizontal e verticalmente, tem um elevado défice de diversidade e de pluralidade de géneros televisivos e uma ‘monocultura’ praticamente exclusiva de dois géneros: novelas e concursos;

v) Existem canais (ex: SIC) de tal modo contaminados pelas novelas brasileiras, que não têm uma grelha generalista e não assumem o desígnio da Lei no plano da identidade cultural e nacional portuguesa;

vi) O cumprimento de quotas europeias está assente numa lógica descartável (de nivelamento por baixo) de programação de “fluxo” sem qualquer tipo de exigência no âmbito da programação de “stock”, onde até o telelixo serve para preencher quotas (com o beneplácito régio dos burocratas de Bruxelas).

No caso do principal canal de Serviço Público, a RTP1:

- mantém-se uma grelha de programas dependente de uma obsessão audimétrica/comercial;

- verifica-se a não subordinação das grelhas a estudos qualitativos estruturados em função da missão e das atribuições e competências enunciadas no Contrato de Concessão;

- verifica-se a inexistência de magazines sobre as artes, o património, a língua e a cultura portuguesa;

- em regra, a inexistência de programas de divulgação e de formação para a cidadania;

- a inexistência regular de documentários;

- também a inexistência de cinema e teatro português;

- e das outras artes do palco portuguesas, de programas eruditos, etc;

- e de programas infantis e juvenis à semana.

E registe-se a entrada em funções do Provedor da RTP, esperando-se que venha a conseguir passar a mensagem de que o Serviço Público de Televisão antes do(s) interesse(s) do(s) público(s), tem um programa de interesse público por cumprir.

Registe-se também, no contexto da renovação das licenças das privadas, que passados 15 anos sobre a atribuição dos alvarás da SIC e TVI, a ERC, na sua Deliberação 1-L/2006 - "Renovação das licenças para o exercício da actividade televisiva dos operadores SIC e TVI", vem considerar, na conclusão do documento, que na análise realizada se verificou “o incumprimento de obrigações assumidas pelos requerentes”. Considerando ainda que “os objectivos constantes da ordem jurídica relativos à actividade de televisão pressupõem o estrito cumprimento das obrigações a que os operadores SIC e TVI estão adstritos, em especial nas áreas da programação infantil, cultural e informativa”, a ERC decidia-se pela renovação das licenças, na condição do cumprimento de certas “obrigações” por parte da SIC e da TVI.

SIC e TVI deverão, genericamente, “emitir uma programação que contribua para a formação e informação do público e para a promoção de língua e cultura portuguesas, tendo em consideração as necessidades especiais de certas categorias de espectadores, entre as quais as crianças e os jovens; contemplar na sua programação os interesses gerais e diversificados do público, incluindo grupos minoritários, étnicos, religiosos, culturais e sociais; emitir programas de informação dos sub-géneros debate e entrevista, autónomos em relação aos blocos noticiosos diários, com periodicidade não inferior a semanal; emitir, diariamente, programas dirigidos ao público infantil/juvenil, no período da manhã ou da tarde; emitir programas de natureza cultural e formativa, nomeadamente, obras de criação documental, teatral, cinematográfica e musical, depois das 23 horas, em horário de audiência não reduzida e com periodicidade regular; diversificar os géneros da programação emitida no chamado “horário-nobre” (20h00-23h00)”, etc.

De um modo geral, as Obrigações agora impostas pelo regulador vêm ao encontro do espírito da Lei e do referido “interesse público” originário, o que deve ser, obviamente, aqui salientado.


Registe-se a importância da OPA da Sonaecom sobre a PT, que teve dois grandes méritos: o de mostrar que privados podem por reguladores e incumbentes na ordem - obrigando os primeiros a imporem a concorrência onde sempre estiveram os monopólios e evidenciando aos segundos que onde deveriam ser triple e quadruple players não são mais do que empresas que concorrem contra si próprias e contra os preços finais no consumo, em benefício próprio.

Por fim, registe-se também que 2006 foi um ano importante em termos legislativos: Estatuto do Jornalista, Lei da Concentração, Lei da Televisão, todos eles documentos com aspectos críticos, nomeadamente em matéria de direitos de autor e de incompatibilidades (estatuto) e em matéria de prestação de serviço público (Lei de TV), que mantém, entre outras coisas, o regime legal de ‘apartheid’ cultural entre a RTP1 e a RTP2, colocando a cultura portuguesa no ‘ghetto’ da RTP2, como se faz há mais de 20 anos neste país, com efeitos muito perniciosos para a cidadania e a democracia em Portugal.

Talvez por isso, Jorge Sampaio alertava em 2006 para os impactes da TV na vida democrática. Num depoimento à TV 7 Dias (ed. especial, nº 1000) dizia o ex-presidente da República: “ (…) Ninguém é obrigado a ver o 'telelixo' e não sei se isso não é apenas uma necessidade de rentabilização e de conseguir audiências. Penso que pode criar novos problemas à vida democrática (…)”.

Será que alguém o quer mesmo ouvir?

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4.11.06




















Em breve nas livrarias esta nova 'colheita'. Nesta obra, agora editada pela Media XXI, procuro desenvolver uma reflexão em torno do tema da qualidade dos conteúdos televisivos e da sua importância crucial para a Cidadania.

Os temas da televisão ‘light’ e do ‘telelixo’ são assim inevitavelmente aduzidos, na tentativa de pensar a importância social e cultural da televisão sobretudo num momento estratégico em que se estrutura a migração da televisão analógica para as novas possibilidades de oferta que o digital traz.

Outras questões, como os problemas e a lógica da regulação sectorial, a renovação das licenças da SIC e da TVI e a qualidade do serviço público de televisão são também temas analisados neste livro.

Pode dizer-se que se trata, no fundo, na sua aparente diversificação de temáticas, de um projecto cuja coerência se resume numa convicção que à partida todos partilham, mas que na prática quase todos têm tendência a esquecer: a de que a Televisão é o meio de excelência para a construção de uma outra ordem cultural e social, mas infelizmente tem sido muito mal aproveitada nesse sentido.


Índice:

I. Televisão ‘light’
I.1 Licenças da SIC e da TVI: renovação sem legitimação?
I.2 Televisão ‘light’, ou o analgésico pós-laboral
I.3 A caverna, a ‘caixa’ e o vaso de flores – à procura de
uma Televisão à altura do Homem

II. Televisão e qualidade
II.1 Proto e pós-televisão: Adorno, Bourdieu e os outros, ou
na pista da ‘qualimetria’
II.2 Televisão, qualidade e serviço público
II.3 Audimetria como ‘autismo’ televisivo

III. Ambientes digitais
III.1 Convergência ‘light’
III.2 Bio@net – do pequeno passo ao abismo
III.3 Miragens digitais
III.4 A regulação da rede e as redes de desregulação

IV. A Migração da Televisão para o Digital
IV.1 A TDT no contexto da Sociedade de Informação
IV.2 Desafios da Televisão Digital: da TDT à iTV

V. Que regulação para o Audiovisual?
V.1 Discutir o Regulador e a lei sobre Concentração
V.2 Uma só Autoridade do Audiovisual e das Comunicações
V.3 Em síntese

Referências Bibliográficas

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24.5.06

Sampaio alerta para os impactes da TV na vida democrática

Jorge Sampaio à TV 7 Dias (ed. especial, nº 1000): “ (…) Ninguém é obrigado a ver o 'telelixo' e não sei se isso não é apenas uma necessidade de rentabilização e de conseguir audiências. Penso que pode criar novos problemas à vida democrática (…)”.

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17.5.06

Sobre o novo critério editorial vigente: 'isto vende ou isto não vende?'

[O texto que se segue é uma recensão crítica do livro de José Manuel Barata-Feyo «RTP: O fim anunciado», Lisboa: Oficina do Livro, 2002. É um trabalho de Mário Verino Rosado, no âmbito da cadeira História e Teoria da Televisão, do DCC-FCSH. Trata-se da análise de uma obra que faz um balanço do serviço público ao longo dos primeiros 10 anos de concorrência televisiva em Portugal, sendo que no essencial se mantém actual, com excepção, porventura, para o actual controlo financeiro da RTP, situação que então era de falência técnica da empresa]


«RTP: O Fim Anunciado», recensão crítica
por Mário Verino Rosado
José Manuel Barata-Feyo, através de um conjunto de textos críticos reunidos no título RTP: O Fim Anunciado, procura identificar as causas que levaram ao declínio estrutural dos canais Públicos (Canal 1 e TV2) em Portugal, bem como analisar a falência do conceito de Serviço Público proposto pelas referidas estações. Além da concorrência das estações televisivas privadas (SIC e TVI), o autor vai procurar as causas políticas que levaram ao «longo e premeditado processo de asfixia que se estendeu por uma década»[1] e que culminou com o estado actual da RTP.
As crónicas e os prefácios, reunidos ao longo dos anos, vão apontando os sintomas de uma estação em falência financeira, cultural e ideológica. Não será, pois, uma actualidade factual a “morte” da RTP, será antes, segundo o autor, um fim anunciado ao longo de anos de más políticas e de concorrência, por vezes, desleal.
No entanto, outros temas de relevância atravessam este conjunto de textos. É fulcral compreender as noções de Serviço Público, sintomas de mau jornalismo, violência e dependência estatal, propostos pelo autor. Um outro factor que confere pertinência e interesse à obra são as “estórias” vividas ou as polémicas suscitadas pelo autor, que, numa escrita muito acessível e sem tabus preenchem a obra com o sentido de dignidade e objectividade tão caros a Barata-Feyo.
Dividida em quatro secções (1.RTP, 2.Uma Das Excepções à Regra RTP, 3.Jornalismo e Jornalistas, 4.Televisão), a obra faz um retrato real do estado a que a RTP chegou. Má Política e Concorrência serão os chavões que atravessam a obra e procuram explicar o porquê do assassínio/suicídio dos canais de Serviço Público.
Para uma melhor sistematização, procuraremos analisar individualmente cada uma das secções da obra, dando relevância, no contexto do trabalho proposto pela disciplina de História e Teoria da Televisão, às questões da concorrência televisiva na Paisagem Audiovisual Portuguesa (PAP) e às deficiências estruturais que terão levado a esta crise do Serviço Público.
José Manuel Barata-Feyo refere, na Introdução da sua obra, que a morte da RTP é de responsabilidade eminentemente política. Para corroborar a sua afirmação, o autor descreve as decisões políticas, que, a partir de 1991, contribuíram para o estado de degradação a que a estação televisiva chegou.
«Cavaco Silva e o PSD acabaram com a taxa de televisão, que existia desde os tempos da ditadura salazarista (!) (…) Enquanto mutilavam financeira e empresarialmente o Serviço Público e sabotavam a área dos seus recursos humanos «fazedores» de televisão, as administrações, escolhidas a dedo pelo Governo, trataram nessa altura de nomear as Direcções de Informação e Programas que, no plano dos conteúdos, melhor podiam complementar o processo de asfixia, privatizando as mentalidades na RTP e nos seus conteúdos, e as apetências e os instintos nos telespectadores, mesmo antes do aparecimento dos operadores privados.»[2]
Barata-Feyo defende, no entanto, que com a chegada do Governo PS, em 1995, a RTP viveu, até Março de 1998 (altura em que Joaquim Furtado assumiu o cargo de director de Informação e Programas dos dois canais públicos) um período em que conseguiu, pela primeira vez desde do aparecimento dos operadores privados, reconquistar audiências. Todavia, a limitação à publicidade no Canal 1 e a proibição da mesma na TV2, bem como a criação da RTP África e dos centros de Emissão Regional, decretados pelo PS sufocaram financeiramente a RTP. Existia, segundo as leis de mercado, mais custos e menos receitas para fazer face às despesas. O autor defende que a culpa não será totalmente imputável à estação. «A culpa foi e é de quem sempre nela mandou – os governos de Portugal, por interpostas administrações.»[3]. Na década de 80, já Vítor Cunha Rego havia considerado a RTP um «prolongamento do aparelho ideológico do Estado». Para todos os efeitos, a dependência política que sempre esteve presente nas administrações da RTP, terá sido fatal para a diluição do seu carácter de Serviço Público. Os «boys» partidários, das direcções da RTP, sempre confundiram o carácter público da estação com as ideologias estatais.
Face a estes factores políticos, a eclosão dos canais privados só contribuiu para piorar a situação da RTP. A Concorrência, muitas vezes desleal, das estações privadas em muito ajudou ao «naufrágio» dos canais do suposto Serviço Público.
A RTP, mutilada em termos de receitas publicitárias no Canal 1, viu a sua TV2 como um «peso morto» financiado em deficientemente pelo primeiro.

1.RTP

«Em 1993, tive a oportunidade de ver aplicar, na RTP, o novo critério editorial vigente: 'isto vende ou isto não vende?'»[4]

Os textos reunidos neste capítulo respondem, na sua generalidade a uma questão: O porquê do declínio da RTP.
No entanto, outros temas são abordados de forma sistemática. Falamos, naturalmente, das questões, transversais a toda a obra: do Serviço Público, das más práticas jornalísticas, da censura, da concorrência e das más políticas governamentais.
Por um lado, o facto de a SIC se ter tornado a bússola dos critérios editoriais da RTP não foi necessariamente positivo. O que isso provocou foi o declínio majestoso do Serviço Público, promovendo o excesso de violência e uma enorme quantidade de «telelixo».
Por outro lado, o espaço publicitário nacional torna-se deveras diminuto para corresponder às necessidades de quatro canais. Chega-se a uma conclusão inadiável: Existem demasiadas estações televisivas em Portugal.
Neste contexto, apenas a TV2 presta serviços de cariz público. Os restantes canais competem o «share» com uma programação nivelada por baixo, em termos de qualidade. «É o espaço da primazia da cultura sobre os instintos, exactamente o mesmo onde se estabelece a diferença entre os povos civilizados e aqueles que o não são.»
[5], refere o autor em relação à TV2.
Barata-Feyo tece uma dura crítica aquilo que define como «sistema governamental» de gestão televisiva, considerando que esta originalidade da mente portuguesa apenas facilitou o desnorte da RTP em relação a uma noção de Serviço Público, bem como cimentou uma prejudicial dependência política, personificada nas sucessivas direcções da estação.
Um outro tema discutido, neste capítulo, é a censura que foi dirigida à equipa da Grande Reportagem em 1983. Segundo o autor, «no seguimento da Grande Reportagem sobre a guerra civil em Angola, filmada nas matas angolanas entre meados de Dezembro de 1983 e meados de Fevereiro de 1984, a administração nomeada para a RTP pelo governo do Bloco Central, presidido por Mário Soares, censurou a emissão, acabou com o programa, desfez a redacção e, enquanto me instalava um processo disciplinar com vista a despedimento, suspendeu-me do exercício de jornalismo e proibiu-me o acesso às instalações da televisão pública durante dezanove meses.»[6].
Em causa estaria uma peça sobre a UNITA. Este regime de censura parece impensável no pós-25 de Abril. No entanto, foi uma dura realidade para toda uma equipa de reportagem. Mais tarde a equipa havia de tecer reivindicações para uma melhor prática do jornalismo: «Pedimos também ao Ministério dos Negócios Estrangeiros uma lista dos países onde não podemos fazer reportagens; pedimos ao Ministério da Administração Interna uma outra lista de temas proibidos em Portugal e pedimos ao conjunto do Governo que faça uma estátua à memória da Liberdade de Imprensa.»
[7].

2. Uma Das Excepções à Regra RTP

«Tema nacional, de eminente seriedade, que exigia um rigor exemplar à Informação do Serviço Público, Camarate ficou assim reduzido, na RTP, a um espectáculo de ficção publicitária…»[8]


Este capítulo funciona como exemplo prático daquilo que se afirma como um verdadeiro Serviço Público no domínio da Informação. O autor refere-se ao tão badalado caso de Camarate, acidente que, entre outras, ceifou a vida de Sá Carneiro.
No Espaço Público existe a dúvida de se Camarate terá sido um acidente ou um atentado. No entanto, uma reportagem realizada pela Grande Reportagem (1981/82) efectuou um levantamento exaustivo e sério de dados, que corroboraram a tese do acidente.
Conforme refere Barata-Feyo, «a RTP disponibilizou todos os meios que lhe foram solicitados pelos jornalistas encarregues pela investigação. Neles se incluiu o pedido de exumação dos cadáveres e a contratação de dois peritos estrangeiros, independentes e de reputação mundial.»[9]
Após um brilhante trabalho de investigação jornalística, o «follow-up» do tema não terá sido alvo dos mesmos escrúpulos. A tese da sabotagem promovida em debate moderado por Judite de Sousa (4 de Dezembro de 2000) pareceu instalar-se nas mentalidades dos portugueses e o documentário, um dos raros exemplos de bom trabalho jornalístico da RTP, permaneceu, tal incómodo, no arquivo da Estação.
Para o autor «o 4 de Dezembro de 1980 está para a sabotagem em Camarate como o Pai Natal para as crianças»[10], para o espectador a própria excepção se transforma rapidamente em regra.

3. Jornalismo e Jornalistas

«Em nome e pela causa sacrossanta do princípio da concorrência, empolaram-se factos, inventaram-se situações, manipularam-se povos inteiros, mentiu-se deliberadamente. Fizemos o contrário do que a Informação manda que se faça.»[11]


Capítulo crítico essencialmente dedicado às «estórias» da profissão jornalística. Tecem-se, todavia, duras críticas à guerra das audiências, vector fundamental da degradação do papel e do trabalho dos jornalistas. Este começam a entender que só devem «responder perante a Opinião pública que os próprios se encarregam de controlar, manipular e até calar, quando tal é o seu interesse»[12].
Será essencial para o jornalismo que a sua deontologia seja revista. O facto de o jornalista se vender e de pensar só no seu bem pessoal não está consagrado nos ideais da profissão. Por outro lado, caberá aos Governos a não distorção e manipulação dos factos apresentados pelos profissionais da Informação. Este fenómeno observou-se em larga escala com a política norte americana de contra-informação, durante os conflitos com o Iraque e durante a crise do 11 de Setembro. Segundo o autor, «em todas estas guerras, as opiniões públicas não foram minimamente informadas. Porque não nos deixaram informar. Mas foram adequadamente intoxicadas com a propaganda que lhe oferecemos. Na melhor tradição das ditaduras.»[13].
Em Portugal, o já referido caso Camarate será um bom exemplo do que se entende por manipulação governamental do trabalho jornalístico.
Neste capítulo existe ainda espaço para uma mordaz crítica lançada a uma reportagem da SIC. José Manuel Barata-Feyo considera «Impensável» a entrevista realizada a Xanana Gusmão, aquando este se encontrava numa prisão indonésia. Segundo o autor, «entrevistá-lo é abjecto. É criminoso. Ultrapassa a vertigem inaceitável do sensacionalismo.».[14].
Serão estes tipos de atrocidade jornalística e humana que se desencadeiam num processo marcadamente concorrencial. O mau gosto da entrevista da SIC infelizmente não terá sido um caso isolado no decurso das guerras da audiência. Semelhantes atentados às boas práticas jornalísticas assombraram os noticiários das três estações (RTP, SIC, TVI).

4.Televisão

«Este vazio só foi possível porque nós, jornalistas, abdicámos da nossa função crítica para melhor nos podermos identificar com a ideologia dominante: a autopromoção, as audiências e o dinheiro.»[15]


Este capítulo assume-se como o mais importante para um estudo dos efeitos da concorrência televisiva, em Portugal, na década de 90. O texto central deste capítulo dá pelo título de PAP. Originalmente serviu de Prefácio à segunda edição de Informação, Manipulação, obra de Alain Woodrow, mas será fundamental enquanto retrato fidedigno do Panorama Audiovisual Português aquando o aparecimento dos emissores televisivos privados.
Assim, em 1996, a RTP, concessionária do Serviço Público mantém os dois canais, mas perdeu o monopólio das audiências para a SIC, o «recém-nascido» dos canais privados. O cálculo do share denota precisamente essa realidade (Canal 1:30% de share, SIC:50%, TVI:12%, TV2:8%).
Canal1, SIC e TVI assumem-se como canais generalistas, com produções e programação de sentido comercial. A TV2 representa o canal das minorias culturais e intelectuais, com uma programação que privilegia a cultura e o saber, mas com índices de audiência extremamente reduzidos. Se bem que o panorama financeiro dos quatro canais seja preocupante, a TV2, proibida de passar publicidade comercial, sustenta-se com as receitas publicitárias do Canal 1. Mas como terá sido possível chegar a este panorama? Barata-Feyo considera que, para além da concorrência, a sentença de morte da RTP terá sido atestada pela sua administração. «Apesar de alguns alertas lançados no seio da empresa, o Canal 1 optou nessa altura por uma estratégia que de pronto se revelou suicida: a Informação do Serviço Público, característica dominante da personalidade e de credibilidade de qualquer televisão, adoptou de um dia para o outro o conteúdo e a forma próprios dos canais privados.»[16]
Todavia, terá sido apanágio da SIC arriscar numa programação polémica e arrojada, aumentando o seu nível de audiências. Numa fase seguinte, a RTP, completamente destituída de personalidade, começou a orientar a sua programação em função da SIC, copiando-lhe em muitos casos a estrutura televisiva. Este factor originou a aridez dos horários nobres do panorama televisivo nacional.
Para Barata-Feyo, «tinha chegado a hora da RTP pagar a falta de uma credibilidade que ela própria destruíra ao destruir os seus programas credíveis, a hora de se ver abandonada por uma Opinião pública que nunca se preocupou em formar.»[17]
O autor refere que durante os anos da democracia a RTP viveu uma situação de dependência ultrajante com os sucessivos governos do país. As administrações da estação, autênticos braços políticos do estado, «privatizaram» a mentalidade do canal. As más políticas que começaram com a extinção da taxa da televisão, em 1991, bem como o financiamento de um Serviço Público com fundos privados, oriundos da publicidade, foram desmembrando a RTP.
«Dir-se-á que a RTP podia e devia ter feito a aposta na qualidade contra a vulgaridade, morrendo de pé ou obrigando o governo a assumir as responsabilidades políticas que eram as suas. Mas só morre de pé quem vive de pé e, na RTP, a tendência do pé era fugir para o chinelo.»[18], refere Barata-Feyo.
Outro factor essencial para a crise na RTP foi a fuga do seu capital humano para a concorrência, que sempre melhor o soube tratar.
Mas, na visão de José Manuel Barata-Feyo, a data oficial da morte da RTP foi a 1 de Outubro de 1995, quando a SIC antecipou, em meia hora antes do fecho das urnas, as projecções dos resultados eleitorais, garantido para o resto da emissão o dobro do share do CANAL 1. «Mas um gigante só cai de um golpe e ainda que baixo, quando já está muito doente.»[19], acrescenta o autor.
Para os próximos anos, resta à RTP ressuscitar e definir as necessidades de um Serviço realmente Público que estabeleça uma interacção fundamental com o seu telespectador. Porque, nas palavras de Barata-Feyo: «No que respeita à Opinião Pública, último suporte da democracia, a interactividade só é possível quando o telespectador, com exigências culturais e de qualidade, puxa pela programação, por seu turno geradora de telespectadores com novas e ainda maiores exigências.»[20]

Considerações finais

Perante tal contexto, a emergência de medidas que regulem a PAP, de forma a não permitir que hajam deficiências no Serviço Público e que não exista concorrência desleal entre as diferentes estações televisivas, é fundamental.
Por outro lado, medidas de carácter político deveriam ser tomadas de forma a quebrar a dependência política da RTP face ao Governo. Barata-Feyo propõe para esse efeito algumas soluções: «A RTP seria confiada a um Director Geral, eleito por dois terços do parlamento ou, melhor ainda, por um colégio eleitoral com uma composição semelhante à do defunto Conselho de Imprensa.»[21], o Director Geral, nunca eleito por um período inferior a cinco anos, prestaria apenas contas a esse órgão e só poderia ser demitido pelo mesmo. Quanto às verbas necessárias para custear o Serviço Público, deveriam ser contempladas no Orçamento Geral do Estado e escrupulosamente fiscalizadas pelo Tribunal de Contas.
A ideia da criação de uma Alta Autoridade exclusiva para o Audiovisual, defendida por teóricos como Francisco Rui Cádima, parece ser a opção fundamental para a PAP nacional. A par desta medida, será essencial promover estudos qualitativos em televisão, aquilo que Cádima define como «possuir os dados sobre o agrado do público, quer em relação às grelhas de programação, quer em relação aos géneros televisivos e à filosofia do canal, independentemente da grelha que possa estar no ar, procurando definir os modelos de programação que encontrem o equilíbrio entre o agrado dos telespectadores - sem conceder ao «comercial» e à guerra de audiências - e a responsabilidade de fornecer um serviço público. Aqui, há sobretudo que ter em conta que o telespectador estatístico é muito diferente do telespectador reflexivo, do cidadão.»[22].
Tudo isto em nome da não diluição do Serviço Público televisivo e do consequente empobrecimento da Opinião Pública. No contexto actual, o panorama televisivo nacional remete-nos para as palavras de José Gil: «A televisão portuguesa é como toda a gente sabe (e com raríssimas excepções, que toda a gente também conhece) uma pura miséria, uma máquina de fabricação e sedimentação de iliteracia.»[23] . Será, portanto, este triste cenário que será urgente repensar.

Notas:
[1]
Barata-Feyo, José Manuel, RTP: O Fim Anunciado, Lisboa, Oficina do Livro, 2002, p.19
[2]
Ibidem:20-21
[3]
Ibidem:23
[4]
Ibidem:29
[5]
Ibidem:42
[6]
Ibidem:78
[7]
Ibidem:.70
[8]
Ibidem:.103
[9]
Ibidem.:101
[10]
Ibidem: 110
[11]
Ibidem: 119
[12]
Ibidem: 118
[13]
Ibidem:147
[14]
Ibidem:129
[15]
Ibidem:154
[16]
Ibdiem:157
[17]
Ibidem: 160
[18]
Ibidem:162
[19]
Ibidem:169
[20]
Ibidem:162
[21]
Ibidem:166
[22]
Cádima, Francisco Rui, Desafios dos Novos Media, Editorial Notícias, Lisboa, 1999.
[23] Gil, José, Portugal Hoje: O Medo de Existir, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2004, pp. 33-34.
Bibliografia:
Barata-Feyo, José Manuel, RTP: O Fim Anunciado, Lisboa, Oficina do Livro, 2002.
Cádima, Francisco Rui, Desafios dos Novos Media, Editorial Notícias, Lisboa, 1999.
Gil, José, Portugal Hoje: O Medo de Existir, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2004.

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9.5.06

Sem tele(lixo)

Não, tenha calma, não faça isso...
É verdade que amanhã é um dia de tentação...
10 de Maio, dia sem TV.
Mas dê lá mais um aninho de tolerância ao telelixo e aguente lá a TV no canto da sala.
Pode ser que o Serviço Público esteja aí a rebentar ou que a TV generalista acabe antes do que se pensa...

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24.2.06

Quando um administrador da RTP se demite… isso pode ser Serviço Público

Formas de Censura em Portugal no Pós-25 de Abril (cont.)

A estratégia de colocar (em Outubro de 2001) um conhecido programador de um operador comercial (formatado ao longo de uma década pela lógica da 'ditadura das audiências') como responsável máximo dos conteúdos de um Serviço Público de Televisão é, ou não, parte de uma estratégia ‘censurante’ do Portugal democrático?

Isto, na medida em que ao ser aberta essa caixa de Pandora, se promoveu, no fundo, a radicalização de estratégias de programação comerciais (a que a RTP aliás raramente se furtou), com mais ou menos ‘telelixo’, com maior ou menor 'nivelamento por baixo', mas fundamentalmente ao arrepio da ética de antena e do necessário contributo para a construção da Cidadania e de uma opinião pública esclarecida que um operador de serviço público deve respeitar e honrar de modo inequívoco.

Muito provavelmente foi esse problema que originou a demissão frontal e desassombrada do então administrador da RTP, Rui Assis Ferreira, prestigiado quadro da administração pública, hoje no Conselho Regulador da ERC, por direito próprio.

O que veio a ocorrer posteriormente só lhe veio dar razão. Daí que a peregrina estratégia de ‘rangelização’ da RTP tenha sido um portentoso erro político e cultural e tenha originado (mais) um momento particularmente crítico na história da RTP e adiado uma vez mais a assunção do SPTV por parte da RTP. E daí também que aquela demissão tenha honrado a pessoa que a assumiu.

Recorde-se ainda, sobre este caso, uma outra demissão, a de Joaquim Furtado, então enunciada desta forma:
"Não poderia ficar com uma pessoa que prejudicou gravemente a RTP"...

Veja-se, ainda, na Deliberação da AACS (que antes se havia pronunciado contra a indigitação da Rangel para a RTP) - PARECER SOBRE A DESTITUIÇÃO DO DIRECTOR-GERAL DE ANTENA DA RTP (Aprovada em reunião plenária da AACS, de 16.SET.2002) as alegações da administração às práticas então instituídas:

(...)

III.3 ("Audições") "Disseram, essencialmente, os dois membros do Conselho de Administração da RTP, designadamente o presidente e o membro daquele órgão que assume a tutela das áreas da informação e da programação:

- que a iniciativa do afastamento do Director-Geral de Antena e do acordo pertenceu à Administração da Empresa;

- que nunca referiram, descreveram ou propuseram ao citado Director qualquer outro quadro de actuação para a direcção das áreas da programação e informação, inquirindo-o sobre a sua disponibilidade para tal;

- que os motivos do afastamento, embora nunca apresentados a esse Director, foram de ordem profissional, contratual e, globalmente, de gestão;

- que esses motivos decorriam, designadamente:

- de uma orientação traduzida numa competitividade mimética, sem atender à especificidade e natureza do serviço público;

- de incumprimentos das quotas de programação de língua portuguesa;

- de incumprimentos relativos ao legalmente estabelecido quanto aos blocos publicitários;

- de desrespeitos do que a lei impõe sobre a divulgação das fichas técnicas de longas metragens;

- de acumulação de funções que em parte pertencem ao domínio do Conselho de Administração;

- de ter sido objecto de críticas – nomeadamente por alguns destes aspectos – por parte do Conselho de Opinião da RTP;

- que não haviam afirmado ao Director-Geral de Antena que ele era profissionalmente competente nem que ele era “persona non grata”;

- que o presente processo de decisão do Conselho de Administração foi completamente alheio e indiferente às citadas conversações entre o Dr. Emídio Rangel e o membro do Governo que tutela a RTP."


(...)

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