19.9.04

Para um debate em torno do dispositivo televisivo (*)

Numa introdução à temática da ‘comunicação audiovisual’, importa contextualizar a emergência da Televisão no âmbito do dispositivo histórico-cultural e comunicacional do século passado e procurar compreender esse fenómeno no plano societal, no contexto jurídico-político e cultural do tempo.

Compreender, por exemplo, os mecanismos de apropriação dos media por parte dos diversos campos de dominação, transformando-os, por vezes em máquinas de propaganda, ou em aparelhos ideológicos de poder, através da imposição de lógicas de consenso social, cultural e político. Explicitar os contextos mass-mediáticos, quer enquanto processo de enunciação subsumido num fluxo unívoco de comunicação, quer enquanto fluxo bidireccional em transição para um dispositivo matricial ponto-a-ponto, interactivo.

Pensar, enfim, as relações entre a televisão e a sociedade, sistema complexo ao qual a investigação científica não tem dado a devida importância, apesar de se tratar de uma complexa temática, porventura decisiva para uma percepção mais clara da contemporaneidade.

Ora é sabido que um meio de comunicação, isto é, os seus principais actores, organizam e enunciam o seu discurso em função das relações de poder e das representações que se configuram num determinado campo social e num contexto epocal. No sentido de se poder pensar o modo como se constitui o sentido dessa dinâmica discursiva, importa conhecer e compreender a noção de dispositivo mediático, nas suas diferentes dimensões, que do ponto de vista do emissor – através das dimensões técnica, instrumental e performativa –, quer do ponto de vista da recepção, percebendo-se a lógica de inflexão de modelos comunicacionais e dos respectivos campos de mediação a partir da emergência do conceito de audimetria e das práticas da recepção específicas atinentes ao campo do telespectador.

Repare-se que as práticas culturais dos portugueses, nomeadamente no que diz respeito ao consumo de televisão têm vindo a mudar nos últimos anos. Desde a chegada da televisão por cabo, foram conquistados cerca de três milhões de telespectadores à televisão hertziana, boa parte dos quais tornaram-se progressivamente telespectadores de canais temáticos, nas suas diferentes tipologias.

Claro que uma visão actualizada do dispositivo televisivo implica problematizar a própria inflexão tecnológica do presente e nessa perspectiva implica Introduzir as problemáticas da evolução das linguagens e dos conteúdos específicos da transição do ambiente analógico para o novo contexto digital.

Vejamos para já a anterior lógica de difusão ponto-multiponto, específica do modelo tradicional de televisão generalista, que ainda se mantém, apesar da cada vez maior fragmentação do audiovisual. Neste modelo de ‘pirâmide’ a comunicação é unívoca, integra uma complexa rede discursiva vinculante, legitimadora, uma nova ordem simbólica, de certa forma dissuasora, unilateral, estabelecendo-se assim um modelo contratual, no fundo, uma ordem política e um quadro normativo-cultural, com impacto também no plano dos comportamentos e das condutas.

Poder-se-ia referir aqui o texto clássico de Casetti e Odin, onde se problematiza a oposição entre Paleo e Neo televisão. Para estes autores, a televisão foi desde logo apropriada por uma experiência de comunicação pedagógica, processo que se configurou, nas primeiras décadas da sua história, num ‘contrato’ com o telespectador, transformando-se assim, claramente a televisão como uma ‘empresa’ de escolarização alargada o todo o social.

A televisão prolongava assim a família e a escola, era uma sua extensão, sendo que nessa altura ‘ver TV’ era como que um respeitável ‘acto social’ em que todos queriam estar comprometidos. Nesta fase a emissão é segmentada de forma muito óbvia nos diferentes géneros tradicionais e a grelha, o velho «mapa-tipo» tem de facto um papel estruturante na emissão.

Mas a esta lógica específica do início da televisão, designadamente na Europa, rompe com o anterior modelo relacional, ao qual sucede um modelo de ‘contacto’, caracterizado por um novo modo de estruturação do fluxo e pelo esbatimento do fluxo contínuo clássico, configurado no estereótipo dos fluxos de programação, dos alinhamentos, das formas de representação do real. É como se o mundo se tornasse fábula. O discurso televisivo conduz ao espectáculo de ritualização do acontecimento e à efabulação sempre violenta do real. Um modelo que se manifesta através da criação de uma cultura‑mosaico e de um contrato de visibilidade e de legitimação com o telespectador.

Mas é também o tempo da emergência de processos de interactividade entre o emissor e o receptor. A relação com o telespectador torna-se mais próxima, mais familiar e mais convivial. Apesar disso, é claro que o tipo de representação do mundo que a televisão dá a ver é ainda assim limitada pelo dispositivo clássico, sendo, em geral, mais conservadora do que as próprias possibilidades técnico-discursivas do meio permitem.

A televisão generalista confronta-se agora com os seus híbridos interactivos, sendo este claramente um sintoma de um novo ciclo em relação ao qual, aliás, quer os produtores de conteúdos, quer o campo da recepção, se estão a adaptar progressivamente, ainda que a formatação de conteúdos no domínio do multimédia interactivo tenha aqui uma dificuldade maior. De facto, a era digital e a pós-televisão assentam num novo modelo de comunicação audiovisual que nos fará progressivamente esquecer esse primeiro modelo unívoco e, de certa maneira, autista, da era analógica.

Nesta mesa procurar-se-á então, nas diferentes investigações, dar um enquadramento crítico, reflexivo, epistemológico e ainda jurídico-político às práticas, discursos e procedimentos específicos do objecto televisivo, quer em referência aos conteúdos, quer no plano histórico e jurídico, configurando e problematizando as tecnodiscursividades, a instrumentalidade, a performatividade, as estratégias e os contextos de enunciação, e, enfim, as políticas públicas.

Pretende-se assim aprofundar neste debate e nas intervenções da mesa de Comunicação Audiovisual algumas questões em torno de dispositivos de informação de programação da era da televisão clássica, das respectivas mediações simbólicas, discursivas, tecnológicas, históricas e jurídico-políticas. Do mesmo modo se procurará fazer a análise de contextos, práticas e regularidades discursivas e das condições de produção histórica do real comunicacional, não só no plano de agenciamento ‘televisivo’ do mundo, como também da lei dos sistemas que orientam o aparecimento de enunciados como acontecimentos singulares no campo da videocultura televisiva.

A analítica destes ‘fragmentos’ do fluxo televisivo, claramente mais específicos da neo-televisão, é extensiva à questão dos modelos televisivos, do serviço público de televisão, passa pelo âmbito sociológico, onde se podem evidenciar designadamente tópicos relativos a uma estética e uma política da recepção, sendo que aqui importa cuidar da interpretação de dados quantitativos através de uma estratégia de investigação onde os estudos qualitativos possam esclarecer o que a audimetria esconde, na sua lógica determinada pelas dinâmicas de mercado e comercial.

Na abordagem das diferentes séries e «acontecimentos-monumentos», específicos da narrativa televisiva e bem assim das modalidades enunciativas e fluxos que se estruturam na emissão de ar, procurar-se-á problematizar a emergência de lógicas de mediação do dispositivo, designadamente a partir da configuração de campos, simbólicos, culturais e políticos criados a partir da interacção entre a televisão e a sua recepção.

Por fim, refira-se que a análise acima referida das relações complexas entre televisão e sociedade só poderá ter as suas consequências através de uma analítica porfiada, arqueológica, do contexto, discursos, modo de recepção e condições de produção do sentido do objecto televisivo. Essa analítica é naturalmente enquadrada também pelas lógicas públicas e privadas e ainda pela questão da regulação sectorial, no âmbito da actual dualidade entre serviço público e mercado, para além naturalmente da fragmentação do modelo audiovisual e da multiplicidade da oferta, com base nos novos dispositivos tecnológicos interactivos.


(*) Texto de Francisco Rui Cádima apresentado na abertura da mesa de Comunicação Audiovisual no III Congresso da SOPCOM - Congresso Ibérico, Universidade da Beira Interior, Covilhã, Abril de 2004.


Referências Bibliográficas

CÁDIMA, Francisco Rui
- «Televisão, serviço público e qualidade», Observatório, nº 6, Obercom, Lisboa, Novembro de 2002.
-,«Proto e pós-televisão. Adorno, Bourdieu e os outros – ou na pista da ‘Qualimetria’», Revista de Comunicação e Linguagens, nº 30, CECL e Relógio de Água, Lisboa, 2001.
-, O Fenómeno Televisivo, Círculo de Leitores, Lisboa, 1995.

CASETTI, Francesco e ODIN, Roger,
«De la Paléo à la néo-télévision. Approche sémio-pragmatique», Communications, nº 51, Paris,1990.

CASETTI, Francesco e CHIO, Federico di
Análisis de la Televisión - Instrumentos, Métodos y Prácticas de Investigación, Paidós, Barcelona, 1999.

12.9.04

bio@net

«Nunca te enamores do teu próprio Zeppelin»Umberto Eco

As grandes áreas de crescimento mundial no sector das tecnologias têm sido a Internet, a convergência TMT e as comunicações móveis, que são não só grandes mercados, mas, fundamentalmente, áreas estratégicas para o desenvolvimento e para a cidadania.

O facto é que se a Net permite o acesso a conteúdos da rede através do telefone móvel, a maior parte dos utilizadores ainda não integrou o novo conceito na sua prática quotidiana.

A situação evoluiu desde há uns anos atrás, mas mantém-se a dificuldade de massificação daquela ligação. Veja-se que num estudo «global» realizado em 2001 pela Accenture, dos cerca de 3.000 inquiridos nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Finlândia e Japão, apenas 15 por cento dos que possuíam telefone móvel o utilizavam para aceder à Internet. Menos de um por cento dos inquiridos efectuava compras on-line a partir dos seus telefones móveis.

Certo é que o acesso móvel à Internet está crescer. A Forrester estimava, numa sua projecção, que 54 por cento dos europeus terão acesso à Net através do telemóvel já em 2005, o que, a verificar-se, constitui um importante avanço.

A convergência nas tecnologias da informação e das telecomunicações marca indelevelmente a realidade do sector. Nesta área, em particular, o número de telefones fixos passou a ser menor do que o número de telemóveis, a nível do planeta (cerca de mil milhões de unidades cada), o que vem acentuar a importância do comércio electrónico móvel.

Cada vez mais se percebe que só uma pequena percentagem de um «móvel» de terceira geração se parecerá com aquilo a que no passado chamávamos telemóvel. O escritor espanhol Juan José Millás glosava esta possibilidade «neuronal» da tecnologia da seguinte maneira: «(...) la familia, en lugar de llevarte flores al cementerio te llevará pilas al móvil, para que continúes latiendo eternamente en el interior de sus circuitos impresos».

Tal como a publicidade endereçada, interactiva e ligada a bases de dados, os EPG’s – Electronic Program Guides constituirão também um dos eixos centrais que farão convergir televisão e internet, sabendo-se que o custo de transferência de um terabite (1000 gigabites) de dados pode cair para apenas alguns dólares.

Mas como será, no fundo, a nova web? Falou-se no sistema GRID, preparado por físicos de partículas, um sistema com uma capacidade de computação, de armazenamento e de transmissão de dados superior em várias ordens de magnitude à actual Internet, milhões de vezes mais potente que a actual, suportado pelo superacelerador de partículas LHC.

De facto, é cada vez mais plausível a hipótese de que a Net possa vir a estar tecida numa mesma base matemática, isto é, segundo os princípios organizativos universais da própria natureza, das redes de moléculas de uma célula, ou mesmo de espécies, num ecossistema ou ainda inclusivamente de pessoas num grupo social. Actualmente, pensa-se que as verdadeiras redes distam muito de ser aleatórias, isto é, apresentam um elevado grau de ordem e universalidade facto que, de certa maneira, foi inesperado para a ciência.

De certa forma, estas redes, ao se constituírem, organizam-se de tal modo que a maioria do seus nós tem muito poucas conexões, mas um número muito pequeno de nós – hubs – tem um elevado número de conexões.

Este tipo de estrutura pode ajudar a explicar que redes tão diversas como os metabolismos, os ecossistemas ou a própria Internet sejam geralmente muito estáveis e resistentes, ainda que propensas a ocasionais colapsos catastróficos.

Dado que a maioria dos nós (moléculas, espécies, servidores de PC) têm um número reduzido de conexões, pouco depende efectivamente deles: pode eliminar-se uma grande fracção que a rede se manterá. Mas se se eliminam uns quantos nós com um grande número de conexões todo o sistema virá abaixo.

Outro exemplo na reflexão das sinergias com as redes é o das nanotecnologias. A nanotecnologia «trabalha» o mundo e as coisas a uma escala um milhão de vezes menor que um milímetro, o nano.

Ciência e tecnologia vêem assim facilitada a exploração dos limites de redução física dos dispositivos mecânicos. A nanotecnologia permite criar dispositivos complexos do tamanho de moléculas e nanomáquinas tão pequenas que poderão interagir directamente com o corpo humano no plano da bio-comunicação.

Dentro das possíveis aplicações para a nanotecnologia inclui-se a possibilidade de introduzir dispositivos de investigação em miniatura na circulação sanguínea ou a de armazenar bibliotecas inteiras em componentes com cerca de um centímetro.

Daí à criação de micro sistemas neuronais de raíz tecnológica vai um pequeno passo, que pode, muito naturalmente, ser o passo para o abismo.

Como evitar então esse abismo? A questão é que aqui poderá também residir a transição do corpo biológico para o «corpo-terminal», bio-maquínico.

Para Dan Tapscott, a hierarquia e a economia industriais estão a dar lugar às organizações e às estruturas económicas moleculares (...), a unidade de base da nova economia digital é o indivíduo. Trata-se também de uma atomização que se configura ainda num novo conceito «virtual» do trabalho, agora mercadoria apátrida e volátil que favorece uma nova divisão internacional do trabalho. Empresa virtual, trabalho à distância, corpo_sujeito_ nómada - «corpo-terminal»…

É certo, como defendia Lyotard, que uma nova eficácia da performatividade dos enunciados deriva da utilização das máquinas informacionais, bem como uma nova ordem de legitimacão. São os sistemas e os programas mais eficazes a 'ter razão’. Em acréscimo, é o próprio regime da tecnociência que se configura como auto-regulador de tecno-desejos e de tecno-imaginários à margem de eventuais solicitações do humano. A razão moderna e os novos tecno-imaginários perdem-se assim nesse espaço disseminado e é justamente nessa zona de sombra e de incredulidade que o escândalo ontológico poderá ser total.

Ora, se estamos, aparentemente, perante essa realidade modelizada pelos tecno-imaginários, e se a sua resultante se configura sobretudo nas novas estratégias informacionais, será então a altura de nos confrontarmos com esse ruído, essa sobreinformação que é uma crise de solidariedade entre o sentido e o ser.

Isto é – e para voltarmos ao essencial: se o «continente», a arquitectura da rede (da Net), a aproxima dos sistemas complexos da própria natureza, que estranho paradoxo poderá fazer com que o seu «conteúdo» a afaste cada vez mais dos mundos da vida das comunidades virtuais? É como se o sistema da vida entrasse numa lógica hipertélica irreversível e radical, deixando-se contaminar por um qualquer vírus letal.

Como dizia Manuel Castells, o poder consiste hoje em criar e impor códigos de informação. A realidade, essa, parece não contar. E a realidade aqui é, sem dúvida, a vida, os mundos da vida.

5.9.04

Videocultura, Memória e Esquecimento

A relação dos media com o mundo ‑ e designadamente a relação específica com a "máquina" televisiva - ­é, no seu complexo campo reticular de produção de saber e fazer, simultaneamente desestabilizadora e apaziguadora, na medida em que a prosa precária que a televisão induz, emerge ora como momento fundador de visibilidade, ora como instrumento de verdade do qual não devem ser iludidos os seus dispositivos, os seus poderes e os seus limites.
A televisão é, por excelência, uma máquina produtora de redundância, recicla continuamente o seu dispositivo e organiza no seu fluxo discursivo um novo espaço‑tempo, uma visão do mundo generalista e compósita.
Existe, por assim dizer, uma acção socializante do imaginário televisivo que se configura nos modelos estabilizados das suas "grelhas" de programação e das suas formas de representação do mundo, as quais conduzem, grosso modo, ao espectáculo de ritualização da cultura e da informação. Sintoma, cujo princípio de realidade se manifesta sem se autodesignar, isto é, trabalha num registo de ilusão naturalista e de criação de efeitos de legitimação tendo por horizonte de conhecimento o seu contrato de visibilidade e de credibilidade com o telespectador, em suma, um horizonte de acontecimento.
Daí, o dispositivo televisivo parte para a construção do seu puzzle ‑ ou da sua "cultura‑mosaico", como dizia Abraham Moles. Toda a sua complexa organização discursiva, o seu dispositivo logotécnico, tem, como primeira acção do seu interface ‑ do seu écran de univocidades -, solicitar a capacidade de identificação do telespectador enquanto parte da audiência, envolvendo‑o num fluxo de tempo sem memória e imaterial, pelo carácter efémero de materialização visual instantânea das imagens que difunde, estratégia de facto redutora, designadamente quando se trata de um media com o impacto e o poder de veicular saber que a televisão, objectivamente, tem.
Imagens em perda, portanto, écrans‑espectáculo do esquecimento, écran de superfícies múltiplas, ambos adstritos ao modelo tecnodiscursivo unívoco da televisão clássica, onde, em acréscimo, a função hegemónica é, em regra, a do "divertimento". Dispositivo tanto mais complexo quanto a máquina televisiva se torna assim, de alguma forma, um "a priori" da consciência moderna.
Pode por isso dizer‑se que a televisão generalista clássica perdeu o sentido da história, isto é, o seu dispositivo evolui de tal forma ao ritmo do "quotidiano", como espelho de uma realidade prosaica, vulgar, que, com alguma perversidade, o registo "telereal" se faz, nela, a uma velocidade directamente proporcional à fugacidade da ordem natural das coisas, do tempo, e do mundo...
A actual sociedade de comunicação, sobretudo com o auxílio da panóplia multimedia de fim de século, constituiu‑se em "sociedade transparente", embora o tenha conseguido numa espécie de duplicação do mundo, provocando assim a erosão do tradicional ‑ ou convencional - "princípio de realidade". O mundo "verdadeiro" torna‑se, então, fábula... E se a história pode também ser interpretada como um inventário do esquecimento, a televisão, mais do que inventariar a figura da raridade, no sentido de Foucault, faz, por paradoxal que pareça, ascender à "dignidade" do seu écran, apenas determinados factos, em preterição de todos os outros.
Produz, por assim dizer, a grande amnésia do tempo. Mas também aqui nada de fundamentalmente novo acontece, isto é, a perda de memória e o esquecimento já se haviam transformado nos traços estruturais da sociedade contemporânea...
Para além da "materialização" do mundo no seu dispositivo logotécnico - técnico e discursivo -, a televisão tem essa faculdade particular de produzir e reciclar as identidades colectivas, de criar um dispositivo simbólico partilhado ‑ uma "vida simbólica comum" 1, o que, em última instância, pode ser visto como uma estratégia de agenciamento de conteúdos e de saberes à imagem do que acontecia com a dependência dos meios de comunicação pública da tutela jurídico‑administrativa do Estado.
É essa filiação histórica e arqueológica que nos permitirá caracterizar o registo inacabado do contexto da emergência, designadamente, do dispositivo televisivo e da ordem do mundo que este institui ‑ quantas vezes também em ruptura com as aquisições e a experiência de um tempo passado.
Diremos, em síntese, que procuramos estabelecer uma arqueologia das estratégias e práticas emergentes da complexa rede interactiva entre os acontecimentos, os pseudo‑acontecimentos e a agenda dos media, o protocolo e as suas mediatizações, entre estes e os seus enquadramentos jurídicos, institucionais e políticos, não excluindo as respectivas máquinas censurantes, persecutórias e propagandísticas. Por outro lado, pretendemos apontar o modo de configuração dessa rede como programa, e procurar, finalmente, a partir da identificação dos seus regimes de enunciação, de transparência e de opacidade, dos seus efeitos de real, e função estratégica da construção do "espaço‑tempo" dominante do dispositivo.
O princípio de realidade emergente, o regime de visibilidade e o contrato de credibilidade que o discurso televisivo, designadamente, institui, trabalham, em conjunto, um registo de real que funciona enquanto telerealidade ‑ uma realidade criada por imagens electrónicas, difundidas por uma máquina e por um dispositivo que é um "intensificador de poder" 2 . Tal como no panopticon de Bentham, esta nova máquina catódica dissocia a dualidade ver/ser visto em novas modalidades, através de novos encadeamentos, nos quais o "ser visto" ‑ tudo o que está virtualmente disponível para a "mise‑en‑ordre" da máquina ‑ emerge, no essencial, enquanto acontecimento, embora no plano absolutamente redutor da política e da catástrofe - da actualidade trágica, da pequena política e do fait-divers dos telejornais.
Diferentes ordens de imagens televisivas instituem diferentes regimes, ou contratos de visibilidade com o telespectador, incidindo ora numa "moral do ver", quando o que é suposto passar é a credibilidade das imagens do desempenho ou da representação política, por exemplo, ou numa pregnância do olhar quando irrompe, com o directo, um signo do real, ou uma imagem-pulsação, ou se dissolve ‑ ou quebra ‑, a lógica de eficácia comercial e consensual do media.
Vejamos um pouco mais para além desses parâmetros essenciais do dispositivo televisivo que estamos a referir. Analisemos concretamente o suporte onde esta lógica dual se institui, o écran imaterial a que Preikschat chamou "palimpsesto electrónico" e através do qual emergem as imagens do mundo, agora convertidas ao regime catódico, imagens das quais nascem imagens, num sistema de hipertelia definitivamente em crise referencial. Mas imagens também que se constituem em fundo de referência das esferas pública e privada dos campos sociais mais directamente dependentes do dispositivo, desse interface‑écran que transforma o antigo modo de ver - sequencial, politópico, nomádico -, em figura, precisamente em matriz centrada, em écran catódico, justamente, de onde procede exponencialmente a infinitude de combinações de pixels.
E é, sem dúvida, neste regime de visibilidade e de temporalidade, em que as imagens se reproduzem em séries 3, e em que a banalização dos efeitos surge como estratégia de fidelização, que os jogos formais tendem de facto a substituir‑se aos jogos de sentido. A imagem entra então numa era de insignificância, esvaziada de sentido, numa espiral de esquecimento em que também cada imagem apenas remete para si própria. E, de facto, repetição e esquecimento completam‑se: a disponibilidade dos telespectadores para se tornarem cativos deste regime pode ser vista, em primeiro lugar, do ponto de vista da máquina de organização televisiva, como um dispositivo contra o tempo e o correr do tempo, e do ponto de vista do destinatário, como "paragem" do corpo‑receptador 4, enfim, como um écran­‑interface sem sentido nem memória ‑ afinal a estratégia natural para que cada série pareça sempre diferente. Mas no fundo ela subsume no seio da programação a noção de grelha, que será, por assim dizer, a "hiper‑série".
Referíamo-nos atrás ao consenso como memória, isto é, à inscrição dos consensos como forma de memória do sujeito reflexivo perante o écran catódico, ele próprio interface neutralizador de todas as distâncias e da próprio temporalidade. E aqui radica exactamente um novo parâmetro fundamental na caracterização do dispositivo televisivo clássico: no écran esbate‑se o tempo e o espaço, havendo como que uma incompatibilidade radical entre a "culture de flot" e a melancolia por uma imagem.
Dizia Deleuze que é, pelo contrário, a totalidade das imagens que se fixa em nós... E seria nesse regime excessivo de desvitalização das imagens ‑ regime que tem percorrido uma espiral desde o início da televisão, num processo progressivo, emergente desse palimpsesto electrónico que materializa em telerealidade todas as razões do mundo, todos os seus acontecimentos ‑, que é desafiado cada vez mais o dispositivo de ‘contacto’ passando portanto, aparentemente, a um dispositivo de ‘contrato’, em constante actualização, expondo‑se assim a crise do próprio dispositivo e bem assim a crise da coesão e da produção dos consensos.
O écran catódico unívoco funciona, também, como neutralizador das especificidades dos processos discursivos que lhe são exteriores, na medida em que ao integrá‑los no seu fluxo homogeneizante, a televisão molda‑os ao seu dispositivo enunciador através de um complexo processo de adequação à sua lógica tecnodiscursiva. Por outro lado, funciona como neutralizador das condições ‑ ainda técnicas e discursivas ‑ de retenção das imagens e dos sons, de registo, não só devido à diversidade da teia enunciativa e da sua lógica de fragmentação/recomposição, como também devido à essência do seu dispositivo cujo modo de desvelamento é deixar aparecer o que, de seguida, inevitavelmente se esquece; sob o ponto de vista técnico trata‑se sobretudo da questão da efemeridade da conservação da imagem electrónica, e portanto da conservação das suas próprias imagens, como se de uma técnica "erosiva" se tratasse...
Este novo espaço‑tempo emergente, que é finalmente caracterizado por um novo tempo dado pela "velocidade audiovisual" 5 suplanta em definitivo, através dessa errância logotécnica, a realidade da presença do espaço real, dos objectos e dos lugares.
Nietzsche dizia que o homem se constituía por uma faculdade activa de esquecimento, por uma espécie de recalcamento da memória biológica: a mnemotécnica, com a emergência do alfabeto, teria sido assim o sistema da crueldade por excelência, um "alfabeto terrível", a organização que traça signos no próprio corpo e lhe dá uma memória de palavras e imagens, esse "inventário domesticador" ‑ o que, em última instância, poderá explicar porventura a natureza desse "pecado" originário ‑ uma convenção, um contrato, nos quais radica a reemergência da faculdade da indiferença e do esquecimento.
Instituída assim uma amnésia do tempo e da história, denegado o acontecimento e as singularidades, através de um saber circunscrito ao "pequeno mundo" da política e da catástrofe, resta a memória algorítmica, ou a "poiética" de uma memória ‑ Jean‑Luc Godard lembrava que se a televisão produzia de facto e esquecimento, o cinema havia criado os seus "souvenirs"... Mas, dir‑se‑ia então, é no espaço do esquecimento que novos holocaustos aguardam a sua vez.
Tal como, no écran catódico, em pleno processo vertiginoso, as imagens se confundem de imagens, também a memória do mundo e das coisas atinge o seu estádio de degradação, não por um excesso de imagens e de memória, mas antes pelo seu recalcamento, por aquilo que Foucault reconhecia ser a possibilidade de memória de um qualquer acontecimento: «Mostra-se às pessoas não aquilo que elas foram, mas aquilo que é necessário que elas se lembrem que foram». O que é algo diferente do "métier de vivre" de Bill Viola (1988:372): «Le regard est son exercice, le monde son théâtre, la perception son mode de passage, la mémoire sa condition» 6 .
Poder‑se‑ia pois dizer, com Florence de Mèredieu 7, que todo o sistema do visível e da representação, tão fina e pacientemente construído após a Renascença, parece assim desagregar‑se brutalmente na pequena dimensão do écran video, quer no self‑media, no video alternativo, quer no écran generalista ou temático, ainda que, com diferenças expressas. Figuras do presente e do diferendo que o encerra, as práticas e as representações singulares da arte vídeo ‑ essa "estética do narcisismo" contemporâneo, como lhe chamou Rosalind Krauss, colocam‑se na linha de resistência ao fluxo, expõem sobretudo um "trabalho de memória" que guarda uma certa verdade, salva a ideia de real - pois, como defendia Godard (referindo‑se ao desporto na televisão), tratar‑se‑ia do trabalho mostrado na sua durée, ou seja, tratar‑se‑ia da memória de um corpo possível de decompor nos seus mais ligeiros movimentos, numa vertigem sem tempo, como em Marey ou Muybridge.
Se ao vídeo alternativo e aos self-media cabe o desvelar dos segredos do sujeito reflexivo, participativo, e do seu processo de afirmação e individuação, à televisão restar‑lhe‑á a prosa do mundo, o corpo inscrito pelos signos que iludem o 'naturalismo' do real. A televisão será, assim, não uma "janela sobre o Mundo", mas um interface‑écran que na sua vertigem centrípeta absorve o vitalismo dos seres, das coisas e do mundo, dando a ver apenas os seus restos e fragmentos ‑ figura, aliás, da "grande política" e do desempenho mediático dos seus protagonistas, da actualidade trágica e do fait‑divers.
E no que concerne à imagem electrónica, a arte vídeo será nesse sentido uma "anti-televisão", espécie de índice‑limite da expressão dos traços constitutivos do sujeito moderno: «Se a comunicação de massa preenche mais ou menos no mundo contemporâneo as funções positivas que eram outrora as da antiga retórica, se a televisão, mais particularmente, detém hoje uma função global de regulação da invenção e da memória, o auto-retrato (vídeo) é naturalmente a expressão mais subjectiva da resistência que a arte vídeo opõe de modo específico à televisão (contra, totalmente contra)» 8. Sem dúvida que o pioneirismo do vídeo e da arte‑vídeo, que remonta ao pós‑experimentalismo do novo cinema americano dos anos 40 e 50, nomeadamente através dos trabalhos de Vostell e Nam June Paik (recorde‑se a sua importante exposição já em finais dos anos 60, "TV as a creative medium", na Howard Wise Gallery), permitem configurar estratégias cuja especificidade remete para um reencontro entre o electrónico e o cinematográfico. O próprio conceito restrito de self‑media, de que todos eles eram adeptos, corresponde claramente ao seu posicionamento enquanto artistas e críticos perante a linguagem convencional da televisão. Dir‑se‑ia inclusive que não se tratava de uma demarcação elitista face à TV, uma vez que as suas propostas surgiam no sentido de propor uma maior participacão das experiências sociais, de uma televisão "do real", verdadeira alternativa ao discurso dos grandes meios, e portanto de um maior acesso das diferentes comunidades à televisão (esse era por exemplo o objectivo das street‑tapes produzidas pelos colectivos‑vídeo em diferentes cidades norte‑americanas, experiências que mais tarde se desenvolveriam em TV's locais, comunitárias e redes por cabo). Como diria o documentarista Geoffrey Reggio, trinta anos mais tarde, «os acontecimentos relatados pelos media não interessam ‑ não é isso que está a acontecer».
No fundo, passado todo esse tempo, os problemas continuam os mesmos... O dispositivo mantém‑se. O trabalho a realizar continua ainda a ser o mesmo ‑ recusa das práticas e dos modelos constituídos, reencontro das fissuras a partir das quais pode irromper a paixão, o "mundo da vida". Nem que para tal se deva invocar a interactividade e o video on demand - o que representará sem dúvida uma ruptura no actual dispositivo da televisão generalista clássica. «A questão é de se chegar a sociedades autónomas, verdadeiros laboratórios de resocialização(...). É necessário aumentar o desejo de desenvolver uma alternativa ao modo de grande difusão. Isso implica evidentemente elaborar o protótipo de uma revolução da comunicação, de a simular: ao desenvolver uma meta-arquitectura social devemos permitir um largo acesso público a modelos de redes conversacionais auto-geridas pelos utilizadores» 9 .
É esta resistência, esta tensão, que a televisão tenderá por certo a reduzir, abrindo‑se ao pulsar do mundo e das coisas, ao conjunto das experiências sociais, indo assim ao encontro dos seus "dissidentes" e das singularidades, democratizando‑se, operando a transformação do sujeito‑estatístico, destinatário fantasma, em sujeito operante, reflexivo, "actor" em corpo, actor em desejo, actor que vê com o corpo todo.

1 Desaulniers, Jean-Pierre, "Télévision et nationalisme", Communication et Information, Vol. VII, nº 3, pp.25-36.
2 Nöel Nel, Le débat télévisé, Paris, Armand Colin, 1990, pág. 132.

3 Michel Kokoreff,"Sérialité et répétition: l'esthétique télévisuelle en question", Paris, Quaderni, nº 9, 1989/90, Hiver, pp. 19-39.

4 Um depoimento de uma entrevistada dado a Jean-Pierre Corbeau (1978) aquando da realização do seu trabalho de campo intitulado Le village à l'heure de la Télé explicitava isso mesmo: «A 19h20 je me dis, bon maintenant, si tu veux connaître la suite, il faut attendre jusqu'a demain 19 heures, je sais qu'a mon âge, je risque de faire le grand saut, et c'est pour cela que chaque fois que j'entends la musique de générique, je pense, tu as vécu un jour de plus» (p.115).
5 Paul Virilio, "La lumière indirecte", Communications, nº 48, 1988, Paris, Seuil, pp. 45-52.

6 Bill Viola, "Y aura-t-il copropriété dans l'espace de données?", Communications, n º 48, 1988, Paris, Seuil.

7 Florence de Mèredieu,"Babel TV", Revue d'Esthétique, nº 10, 1986,Toulouse, Privat, p. 248.

8 Raymond Bellour,"Autoportraits", Communications, nº 48, Paris, 1988, pp. 345-346.
9 Gene Youngblood,"Vidéo et utopie", Communications, nº 48, 1988, Paris, Seuil, pp. 176-181.

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