1.1.06

TV’05: desencontros com a Ética de antena, a Cidadania e o Desenvolvimento do país

Aí vamos então a algumas das misérias do Audiovisual nacional em 2005.

O balanço do ano é naturalmente um balanço de anos, dado que o pior da Televisão generalista se repete, de ano para ano, e, no essencial, de década para década.

De um modo geral, as potencialidades da Televisão são usadas só numa percentagem muito reduzida, sendo a parte restante ocupada pelos diversos ‘lixos’ televisivos reciclados em regulares atentados à Cidadania, à dignidade da pessoa humana e ao amesquinhamento das potencialidades do país e dos portugueses.

Educar, informar, divertir, diz-se agora: edutainment, infotainment, entertainment. E a soma destes: democratainment. Educação é palavra vã, quase banida do universo televisivo.



A informação


Informação, procura-se. Algum do requisitório de 2005: Encontram-se facilmente violações do princípio do pluralismo; uma espiral de silêncios do debate público/político sobretudo nas TV’s privadas; um "repugnante circo dos tempos novos" nas televisões consagradas às desgraças em geral e aos crimes em particular (como disse Sampaio); tele-arrastões virtuais na praia de Carcavelos; telejornais da RTP, SIC e TVI que obedecem à lógica comercial (tese de doutoramento de Nuno Brandão); Cobertura dos fogos de Verão como ‘o pior da TV’; Jornalismo do Fim do Mundo (perguntava o jornalista para a câmara, em directo: «Como é que é possível que em Cascais exista um bairro destes?); Telejornais ‘esticados’ até à hora de duração, ou mais, respondendo a estratégias de programação e não à deontologia profissional; ‘jornalismo sentado’ e submisso; ou o reconhecer que a Televisão e esse mesmo jornalismo sentado 'vampirizam notícias de rádio e imprensa’ (tese de Dinis Alves: "Mimetismos e determinação da agenda noticiosa televisiva - a agenda montra de outras agendas”).

Informação pode também ser 'telectrocução': a notícia da presidência portuguesa no Conselho da Europa aparecia no meio do alinhamento do TJ de (16.5.05), às 20h22... Mas a segunda notícia do alinhamento foi o despiste de jogadores de futebol numa auto-estrada do norte do país e a terceira notícia referia a electrocução de um trabalhador, com a 'descarga a entrar pelas costas e a sair pelos joelhos'. Poderia o TJ falar-nos da 'telectrocução' que nos entra todos os dias pelos olhos dentro? E Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo: 'mas que jornalismo de serviço público é aquele que abre o seu noticiário com a bicha para a compra de bilhetes à porta do Alvalade XXI?' Ou, outro exemplo ainda a angústia do Jornal da Tarde perante a queda da placa (ver post de 6.5.05).

Ou ainda (Rangel, CM, 13.5.05): Do 'melhor' TJ (RTP) ao tablóide (TVI) passando pelo dos fretes políticos (SIC): «O ‘telejornal’ da TVI é uma lotaria, onde raramente sai um primeiro prémio. Um estilo popularucho, tablóide, às vezes panfletário. É o pior dos três jornais. Falta credibilidade. Manuela Moura Guedes está muito mal na apresentação do serviço de notícias. É difícil levá-la a sério. Os outros apresentadores realizam muito melhor trabalho. As notícias e as não notícias misturam-se como se tudo fosse a mesma coisa. A informação é, de facto, a zona mais pobre da TVI.»

Entretanto, Deus não ouviu ainda Luis Marinho (post 27.6): 'RTP quer reduzir duração dos telejornais': «O director de Informação da televisão pública, Luís Marinho, acha que em Portugal a duração dos telejornais se dilatou devido à guerra de audiências e quer agora noticiários mais curtos. Diz que as pressões políticas e económicas não são problema.»

Fica como marca essencial, no fundo, os constantes desencontros e atropelos da informação televisiva, privada, mas também da pública, com a Deontologia e o Jornalismo, com a Cidadania, enfim, com a virtude civil e a experiência social, com o Desenvolvimento do país.

A programação


Na programação, o que «O que existe é muito de um determinado género de ficção e só num canal», como bem interpretou Frederico Ferreira de Almeida, Presidente da APIT - Associação de Produtores Independentes.

Nesta área, manda a contraprogramação. Às perguntas mais difíceis do ano, por exemplo: Será que o ‘espectáculo pérfido’ de Kléber passa impune em Portugal? A resposta (da AACS) é: sim! Na TVI, o lado negro vem essencialmente com Kléber e com o final da tarde e as noites dominadas por um só género televisivo, esticado ou não, com objectivos de contraprogramação - o que configura uma espécie de TV generalista-temática de narrativas pouco edificantes nos seus excessos...

Não tão impunes passaram as obscenidades da SIC: Às duas por três, filmes para maiores de 16 no horário da tarde, Flagrante Delírio... Conhecem-se as novelas da Globo/SIC na lista negra da 'baixaria'... Impune continua a estratégia geral da SIC: o grave atentado de Carnaxide à identidade cultural portuguesa e à Lei da TV com 6-TELENOVELAS BRASILEIRAS-6, a começar por volta da 17h00 e a acabar às 00h00, interrompidas pelo Jornal da Noite e pelos Super Malucos. Isto é, 5h30 minutos de novelas brasileiras, no ante-prime time e no prime time…

Novos horrores televisivos apareceram:
‘Se não acreditam em mim espreitem esta produção SIC’ (Rangel, CM, 1.5.05): «As televisões privadas decidiram estrear programas que testam a fidelidade de casais. Mas se ‘Teste de Fidelidade’, da TVI, é mau, o formato da SIC não fica atrás. «‘Juras de Amor’ da SIC é pior que ‘Teste de Fidelidade’ da TVI, sendo que ‘Teste de Fidelidade’ é um horror televisivo».

Na RTP não se foge à regra dos concursos que mais parecem ‘uma loja dos 300’,
nem tão pouco a estratégias obsessivas que atentam contra o Contrato de Concessão da RTP na fidelização horizontal e vertical do prime time, como se se tratasse de um qualquer canal privado.

No exterior dos canais, em matéria de regulação e auto-regulação, mantém-se a necessidade de um debate sobre a qualidade e a monitorização do Serviço Público e das privadas, reconhece-se a importância do Provedor, e lamenta-se o descalabro da ‘novela’ sobre a renovação das Licenças da SIC e TVI.
Outro decalabro: a sinalética televisiva, que traz mais auto-confusão em vez de auto-regulação.

A AACS deu mais uma má imagem de si ao ter deliberado em 2005 (!) sobre o processo de contra-ordenação instaurado contra a SIC, em 22 de Maio de 2001, sobre “O BAR DA TV”.


Importa, pois, mudar a TV que temos

O lado negro da televisão emerge, entre outras coisas, com o ‘real’ que o dispositivo televisivo cria, com a espectacularização do real, com a negação do acesso e dos particularismos, da diversidade, com a aculturação por «empréstimo», o abuso da violência explícita e implícita, e, através de um processo cuja complexidade analítica é evidente, pelo desafio dos fundamentos, pela desautorização dos princípios, dos valores, e mesmo da tradição, dando, por defeito, notoriedade e sobretudo uma falsa legitimidade ao negativo, ao monstruoso, quer se trate de um indivíduo, de um jogo de interesses, ou simplesmente de um fait-divers. É essa televisão que é urgente mudar.

Importa, pois, mudar a muito triste e dolorosa realidade televisiva, que nos diz que «se comparada a "oferta" (minutos emitidos) e a "procura" (minutos visionados), vemos que os programas de desporto obtiveram a melhor relação, estando a sua "procura" 54% acima da "oferta". Numa relação positiva (acima de 100), posicionaram-se também os programas de informação, ficção e divertimento. E, por conseguinte, os programas de Arte, Cultura, Conhecimento e Juventude têm a pior relação entre horas emitidas e horas visionadas. Apesar de todos sabermos que as televisões são avessas, em regra, à Arte, Cultura, Conhecimento e Juventude (et pour cause…), a verdade é que, mesmo assim, esta é uma notícia que fere e faz sangrar. É sem dúvida uma das piores notícias que se pode dar a um país que fez uma ‘revolução dos cravos’, mas que agora se vê encravado por todos os lados e ainda por mais um - o do «Conhecimento» através da Televisão. Fica a pergunta que, com certeza, todos saberão responder: o que será afinal que a televisão portuguesa está mesmo a ensinar aos portugueses?

2005 ficava ainda marcado por uma entrevista de Moniz ao DN. No início dos anos 80, o então Presidente da RTP, Proença de Carvalho, dizia que se o país era medíocre, não havia razão para a televisão ser diferente. Quase 25 anos depois, um dos homens que mais responsabilidades teve na televisão dessa altura (e actual), José Eduardo Moniz, diz que a
"Televisão portuguesa é melhor do que Portugal" (DN, 9.7.05). Dois comentários para um mesmo sentido: Portugal é 'mau'. Com estes homens e esta mentalidade a liderar as nossas televisões, é bem difícil levar aos Telejornais que Portugal é efectivamente um pequeno-grande país, com uma grande história, com grandes homens e grandes mulheres e certamente com grande futuro. Um futuro que será tanto mais risonho quanto mais depressa se afastar aquela mentalidade das televisões portuguesas.
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