15.2.06

O desassombro de Mestrinho, ou o ‘delito de opinião’ na TVI

Censura em Portugal no pós-25 de Abril (cont.)

Corria o ano de 1997 e a TVI afastava Fernanda Mestrinho das funções de Editora da área Política por opiniões da jornalista sobre o programa Directo XXI, que vinha substituir o anterior noticiário.

Nesse mesmo ano, Fernanda Mestrinho participava numa Conferência Internacional sobre Televisão no ISCTE. Tânia de Morais Soares, no seu texto "
A 'Re-Regulamentação' do Mercado Televisivo face à Vocação Cultural da Televisão" (Documento Síntese da Conferência Internacional sobre Televisão de 23 de Maio de 1997), cita a opinião de Mestrinho sobre a situação na televisão portuguesa:

«Para Fernanda Mestrinho, caberá, com efeito, “a esta geração de telecratas, tentar resistir ao telelixo, tanto na informação como na programação”. Enquanto representante da Direcção do Sindicato dos Jornalistas, e como membro do Conselho Deontológico, esta interveniente salientou o trabalho que este órgão tem vindo a desenvolver no sentido de denunciar a quebra de regras básicas da deontologia dos jornalistas. Segundo referiu, não é apenas a evolução tecnológica que está na base deste panorama televisivo, mas sim a existência de um poder que é atribuído às audiências mas que atribui aos poderes económicos, ou seja, ao diálogo entre os líderes das televisões e os agentes económicos, motivo porque em Itália se discute o redimensionamento da participação dos agentes económicos nas estações de televisão. Salientou que, neste momento não existiam apenas o poder legislativo, executivo e judicial, mas sim mais três poderes: o mediático, o tecnológico e o financeiro, com muito mais poder que os três primeiros. Acontece que o poder mediático dificilmente denuncia casos relacionados com o mundo financeiro enquanto que relativamente ao poder político, o faz sistematicamente, porque: “actualmente quem manda não dá a cara e quem dá a cara não manda”, o que acontece no interior das próprias televisões.

«Segundo afirmou, com o advento das televisões privadas não se assistiu a uma diversidade da informação mas sim a uma uniformização. Tudo se rege pela venda do produto, porque não se assume que a informação é um bem mas sim um produto, acarretando um efeito perverso no funcionamento dos meios de comunicação social, dando lugar à permissividade, à utilização de uma nova geração de jornalistas que por ambições de carreira ou por ingenuidade, se deixam enredar na nova lógica das redacções. A seu ver, deixou-se de dar notícias, para fabricar e vender notícias. A informação passou a ser puro espectáculo para consumo das massas, a informação é cenarizada, dramatizam-se os factos, esbatendo a distinção entre jornalistas e animadores. Com efeito, “maquilha-se a verdade” e quando se colocam no ar notícias sobre tragédias individuais ou colectivas não se pretende denunciar os factos mas “vender o horror da notícia”. No plano do entretenimento “é de facto a paródia nacional”, se a SIC é o expoente máximo da arrogância e da falta de ética profissional, o facto é que as restantes televisões não estão virgens nessa matéria, num constante mimetismo do sensacionalismo da SIC, levando à invasão profunda da vida privada e da intimidade dos cidadãos. Todavia, mostrou-se de acordo com Paquete de Oliveira que alertara para o facto de que não se pode pensar a televisão sem a inserir no seu contexto social, e que não existe nenhuma empresa (seja ela de comunicação ou não) que não trabalhe na gestão de produtos, daí que todos os media estejam a fabricar notícias para vender informação. Porém, tal não tem que ser necessariamente perverso, porque a questão vira-se para as práticas e rotinas da produção de informação, cabendo aos próprios jornalistas um importante papel nesse sentido. Mas, para Fernanda Mestrinho, a venda da informação deve ser pensada ao nível dos departamentos comerciais, através de promoções interessantes e não ser instalada nas redacções condicionando totalmente o tipo e a forma desse produto informativo e inclusivé os critérios de noticiabilidade. (…)

«Para Fernanda Mestrinho, no que respeita ao “jornalismo de investigação” sucedem-se os erros, porque já não se faz investigação séria, que esteja segura dos factos. Como afirmou, tal não significa que tenha uma visão fossilizada ou institucionalizada desta matéria, admitindo a introdução de eventos de entretenimento no seio de um programa sério. Porém, para que a investigação jornalística possa ser boa e vender bem, para ser arriscada, competitiva e agressiva, não quer dizer que ela não possa ser também rigorosa, respeite os direitos individuais dos cidadãos e os princípios éticos. (…) Mestrinho manteve a sua posição de que o jornalismo deve conservar a sua objectividade e veracidade, além do que, a questão da fusão de papéis (fomentada pelas direcções de informação e pelas administrações das televisões) entre jornalistas e comunicadores, serve propósitos que visam retirar aos jornalistas o espartilho das regras deontológicas, e que os passem a considerar como um sub-departamento de uma área genérica da programação e da informação, levando a que os jornalistas fiquem limitados ao trabalho dos telejornais e sem margem de manobra para fazerem grandes programas de informação.»

Etiquetas:

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mestrinho é grande.

10:33 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home

Site Meter