11.2.06

“Não estamos assim tão longe de um certo Islão”

“Professor de Ciências da Comunicação defende que o Ocidente não pode ser etnocentrista e deve ter cuidado ao mexer com a sensibilidade religiosa do povo muçulmano. Até porque os média têm telhados de vidro” - Entrevista de F. Rui Cádima a José Eduardo Fialho Gouveia, Independente, 10 de Fevereiro de 2006.

Na sua opinião os “cartoons” de Maomé que desencadearam toda esta onda de violência são insultuosos para com o Islão?
Num quadro de boas relações entre o Ocidente e o Islão, estou convencido de que este caso teria passado praticamente despercebido. Num quadro conflitual, tudo serve para colocar mais um pauzinho na engrenagem. Por outro lado, tudo o que é do foro religioso obriga o enunciador a conhecer os complexos contextos de enunciação. Qualquer “cartoonista” menos avisado arrisca-se a ser insultuoso quando entra, nestas áreas, como elefante em loja de porcelana.

Mesmo partindo do princípio que são insultuosos, um jornal tem ou não o direito de os publicar?
No Ocidente tem esse direito. O dever, talvez não. Por uma razão ética e deontológica, a eventual ofensa a terceiros, sobretudo em matéria do foro religioso, deve obedecer à contenção e ao cuidado que a razoabilidade justifica.

Por que razão o foro religioso é diferente dos outros?
Porque tem a ver com a fé as crenças mais profundas e ancestrais das diferentes civilizações.

Encontra alguma diferença entre estes “cartoons” e a célebre caricatura de António, no “Expresso”, onde João Paulo II aparecia com um preservativo no nariz?
São questões diferentes. O que digo é que, infelizmente, nesta paróquia chamada Portugal seria mais difícil o António pôr o preservativo no nariz de algumas personalidades cá do burgo, do que no nariz do Papa.

O preservativo no nariz do Papa, ou o “Código Da Vinci” de Dan Brown, onde se relata a estória de amor entre Jesus e Maria Madalena, não podem ser igualmente insultuosos para a comunidade cristã e católica? São questões diferentes porquê?
O que se passa entre indivíduos do mesmo espaço cultural, geo-político e do mesmo campo religioso permite dirimir o diferendo num quadro em que os códigos são comuns. O mesmo não sucede no caso das caricaturas de Maomé.

A sátira sempre foi uma arma. No momento em que esta for constrangida e limitada poderá estar em risco a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa?
A sátira, mesmo a mais virulenta, é em regra aceite, mas num quadro específico de referentes e valores culturais, religiosos e civilizacionais. Quando esse quadro muda, estamos perante o diferente, não perante o próximo. E manda a “lei” cristã que quando o diferente ou a minoria é atingida na sua consciência, todos nós devemos ser diferentes, todos devemos ser minoria. O etnocentrismo foi chão que deu uvas há muitos anos.

Os “cartoons” foram publicados no Ocidente, dentro desse “quadro específico de referentes” que aceita bem a sátira. Por essa ordem de ideias não devíamos permitir que o Islão insultasse a cultura ocidental...
E não permitimos. Só que quando o Irão disse, por exemplo, que o Holocausto nunca tinha existido, o Ocidente não foi a correr incendiar as embaixadas iranianas... Tivemos outra postura. Esse é um dos exemplos que o Ocidente deve dar. Mas a estratégia do olho-por-olho-dente-por-dente embora sendo do tempo dos dinossáurios, tem infelizmente muitos adeptos por aí.

Tendo em conta todas as reacções de violência que se seguiram à publicação dos cartoons de Maomé, que atitude devem tomar os países ocidentais?
O pior que o Ocidente pode fazer é teimar em ser etnocentrista. Um pouco de modéstia, mais conhecimento e compreensão pelo outro, aparentando ser algo extremamente simples, é afinal algo muito complicado. Como diria Le Goff, vivemos afinal, no Ocidente, a continuação de uma longa Idade Média. Não estamos assim tão longe de um certo Islão, pelo menos em matéria de fundamentalismos e fundamentalistas.

Devemos então ser compreensivos com a onda de violência que já resultou em vítimas mortais?
Devemos compreender, sobretudo, que desde o pós-Guerra, os líderes ocidentais têm conduzido de forma muito negativa as relações Norte/Sul e Ocidente/Islão. Ainda só estamos a pagar os juros dessa factura.

Quais são os limites para a liberdade de expressão?
O rigoroso respeito, mas também a frontalidade e o desassombro - sem ofender -, pelo próximo e pelo diferente.

Isso significa que, por exemplo, todos os textos ou caricaturas que possam ofender um dirigente político devem ser evitados?
De todo. A matéria política é matéria secular e os políticos transformam-se, com alguma facilidade, em caricaturas de si próprios. O espaço da ‘ofensa’ é aqui bem mais lato. A política é, afinal, um reino fértil para a caricatura, ao contrário da religião.

Muitos defendem que os “cartoons” não deviam ter sido publicados em nome do respeito pela cultura islâmica. A hierarquia dos jornais deve interferir nos espaços de opinião?
Há opinião e opinião. Há opinião e propaganda. Há opinião e desbragamento. Todos os dias, em todas as edições e em todas as secções há uma intervenção da hierarquia. Na selecção, no alinhamento, nas opções editoriais. Quantos artigos de opinião chegam às direcções dos jornais e não são publicados? Quanto são depois sancionados – sobretudo autores – por terem dito algo que não convinha muito aos proprietários do jornal? A história da imprensa está cheia desses casos. São inúmeros os exemplos de censura nos média, em Portugal, no pós-25 de Abril. E por muito menos do que se passou agora com os cartoons sobre Maomé.

Defender que os espaços de opinião devem ser “vigiados” editorialmente não é abrir caminho à censura?
É, claramente. Mas eles são-no. E ela, a censura, está aí. Só a não vê quem não quer. Não podemos crer, candidamente, que os média, no Ocidente, são um alfobre de liberdade e democracia. São qualquer coisa bem diferente e bem mais complexa. Não se deve ser hipócrita ao ponto de derramar por aí, inocentemente, a apologia da liberdade de expressão plena, quando sabemos que os média, para onde os livres e libertos “opinion makers” da nossa praça escrevem, têm também telhados de vidro. Liberdade de expressão e liberdade de imprensa são expressões muito bonitas, mas não mais do que isso.

3 Comments:

Anonymous Fernando Correia said...

Meu caro Rui Cádima, apenas umas breves palavras para manifestar a minha concordância com as suas palavras e cunprimentá-lo por mais este pontapé na hipocrisia.

1:02 da manhã  
Blogger Mais Notas Soltas said...

Discordo completamente. Também teríamos que ser compreensivos para com a Inquisição, se as fogueiras ainda ardessem no Terreiro do Paço?

O Observador

http://maquinazero.blogspot.com/

12:57 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Meu caro 'observador',
Reconheço que a minha posição quanto ao caso Maomé é um pouco 'institucional'.
O que eu quis foi precisamente chamar a atenção paa as pequenas fogueiras inquisitoriais que ardem todos os dias nos media portugueses sem as querermos ou podermos ver...
Se não consegui passar a mensagem, erro meu...
Cumprimentos,
FRC

10:04 da manhã  

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